terça-feira, 16 de setembro de 2014

O primeiro dia

Primeiro dia do novo ano escolar. Levantar mais cedo, mas o mais cedo não é cedo o suficiente. E os passos ensonados, apesar de mais acelerados que o costume, também não são rápidos o suficiente. E começa a correria. O cabelo mal penteado, os dentes por lavar, os cereais que ficam na taça, o café entornado na toalha, o lanche ainda por fazer, o computador ainda por arrumar na mochila (e o carregador que não aparece!), e como é o almoço de amanhã, tem de tirar a senha hoje? Com isto, a tempestade que está lá fora é irrisória quando comparada com o furacão que vira do avesso o humor de toda a gente. E o relógio que não deixa de andar. Já são 8:10 e a menina entra às 8:25. Bolas, vai chegar atrasada logo no primeiro dia. Talvez não, talvez não haja trânsito. Mas há, claro! Ainda por cima chove copiosamente. O caminho faz-se devagarinho, muito devagarinho. E parece que toda a gente resolveu meter-se no nosso caminho. "E o papel que trouxeste para preencher, está direitinho?". "Hi, não, esqueci-me". Com a letra mal amanhada vai preenchendo o impresso enquanto o carro avança aos solavancos. Chegamos. Seis minutos de atraso. A professora acabou de entrar com os meninos. E o impresso ainda não está todo preenchido. "Dá cá, eu acabo". Pronto. De puxão sai do carro. Chega ao portão. Esqueceu-se da carteira no carro. Volta atrás a correr. "Isto de ir de carteirinha para a escola ainda vai dar para o torto" (já deu, logo no primeiro dia!). Entrou. Ficou. De regresso ao carro. Uff. Pela primeira vez na última hora, respiro fundo. Percebo que nem tempo para escrever. Amanhã temos que acordar mais cedo!

domingo, 14 de setembro de 2014

Reencontros

Há pessoas que nos passam pela vida e no ajudam a tornar naquilo que somos:
- os colegas da escola, com quem partilhámos a dor das reguadas por cada erro no ditado e dos joelhos esfolhados num recreio mal preparado para as nossas brincadeiras;
- os primos emigrados, que voltavam em cada Agosto, nos traziam chocolates  e castelos de areia, e nos faziam perceber o significado de "família alargada";
- os "irmãos escutas", com quem enfrentámos tantos medos e desafiámos impossíveis;
- a malta do "murinho" lá perto de casa, com quem sentíamos pertencer a um grupo e vivíamos as paixões da adolescência;
- os colegas da faculdade, com quem, entre resumos, noitadas, aulas ensonadas e copianços, partilhámos a tarefa de procurar o conhecimento e com quem desfilámos pela avenida, vestidos de caloiros e de doutores;
- o pessoal do Orfeão com quem aprendemos a dançar, descobrimos novos mundos e novos sentidos para a amizade.
Entretanto, as vidas tomam sentidos diferentes e cada um segue o seu caminho.
Mas, depois, coisa do destino ou da ousadia de algum que o decide enfrentar quando o tempo já começa a ser muito e a saudade aperta, lá estamos alguns de nós, sentados à volta de uma mesa farta, barriguinhas mais inchadas e pele mais enrugada, e uma série de crianças que brincam indiferentes ao que ali está a acontecer. De repente, sem dar por isso, volto a ser:
- a criança que se sente confortável por ter com quem partilhar a dor;
- o menino que saboreia os chocolates trazidos da Alemanha;
- o rapaz que percebe que os impossíveis são para desafiar [não é que o o Tó está mesmo no Gabão?];
- o jovem que sente que tem ali o SEU grupo de amigos;
- o estudante que volta a aprender e que partilha o seu conhecimento com os colegas;
- o orfeonista que dançava, cantava (mesmo que desafinado) e que, depois de uma sangria bem bebida, até vestia toga.
Ui! Estarei a ficar velho?
Não!
Estou vivo,
e rejuvenesço em cada reencontro.

sábado, 13 de setembro de 2014

Notas sobre o 2º Congresso da Ordem dos Psicólogos - II

Se impressiona pela questão dos números, este 2º Congresso da Ordem dos Psicólogos impressiona também pela organização - um acolhimento rápido e eficaz; cumprimento rigoroso dos horários; um "datadesk" onde quem ia fazer a comunicação descarregava a sua comunicação com antecedência; voluntários extremosos que, assumindo plenamente as suas funções, faziam com que nada faltasse e com que tudo decorresse pelo melhor na "sua" sessão. Muito bem. No meu entendimento, estão todos de parabéns. Uma breve referência ao que mais me marcou em termos de conteúdos, aquilo a que consegui assistir (sim, porque com uma tão grande diversidade, foi inevitável por vezes experimentar uma sensação de perda):
- o Simpósio sobre o Modelo de Complementaridade Paradigmática - para além do brilhantismo do Professor Branco Vasco, que já tinha admirado há dois anos atrás na sequência da sua apresentação sobre os princípios de uma Psicologia Integrativa, foi possível assistir à apresentação e ilustração de um modelo de psicoterapia com o qual me identifico. Fiquei com vontade de o estudar e de o utilizar.
- o Simpósio sobre os conflitos de interesses na Psicologia - foi possível assistir a váriase interessantes explicações sobre alguns aspetos do nosso Código Deontológico, nomeadamente as relações múltiplas, duplicação de intervenções e as hierarquias institucionais, mas o que destaco foi o excelente trabalho de síntese e reflexão que a Professora Inês Nascimento apresentou sobre o tema da "Referenciação". Tantos aspetos importantes! Trouxe muito com que pensar.
- o Simpósio sobre os relatórios Psicológicos, com uma muito interessante apresentação do Professor Mário Simões - apesar de ainda haver sempre aspetos a melhorar, foi bom sentir que estamos a fazer um bom trabalho!
- a quantidade de comunicações com relatos de experiências em que os psicólogos utilizam várias dimensões artísticas como recurso terapêutico - dominar ou ter acesso a ferramentas artísticas (pintura, dança, música, teatro,...) pode de facto trazer importantes contributos para o processo de intervenção psicológica.
Acabou. Participar neste Congresso foi um importante momento de formação e valorização pessoal e profissional. Venha o próximo!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Momentos que ficam

Há momentos que ficam. As chamadas "memórias duradouras" que ficam gravadas a fogo e não se degradam. Não são narrativas, palavras que nos contamos, antes "imagens mentais" que, como tão bem descreve António Damásio no seu "Livro da Consciência", não incluem apenas imagens mas também sons, aromas e sensações corporais, e até uma reposição de estados emocionais. Normalmente relacionam-se com eventos da nossa história ou da História universal que, por tão intensos, adquirem está configuração particular. Foi ontem 11 de Setembro. Já lá vão 13 anos, mas quem não se lembra do que fazia, onde estava, o que ouviu, o que sentiu, no momento em que soube dos atentados? Mas, felizmente, não ficam apenas momentos dramáticos. Há por exemplo, no dia do casamento, o momento em que saímos da igreja e, depois do "banho" de arroz, somos abordados por toda aquela gente a felicitar. Há o nascimento de um filho, o ver o nascer do sol no alto do "Pico", o regresso a casa e o abraço da família depois de um longa viagem. E também há momentos que deliberadamente marcamos como sendo para ficar. Momentos eleitos, aos quais, de forma consciente colocamos uma etiqueta que os classifica como tal. Lembro a primeira vez que percebi que estava a fazer isso - Vila Fernando, num tórrido final de Julho, acampamento dos escutas, quando, já noite a dentro, inaugurávamos com um duche refrescante o engenhoso chuveiro que acabávamos de construir. Lembro bem o momento, mas também o facto de o "etiquetar". Ontem, num cacilheiro, a olhar o Tejo no regresso à Trafaria depois de um dia de fortes emoções, enquanto conversava e lembrava alguns desses momentos, acabei por criar mais um.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Notas sobre o 2º Congresso da Ordem dos Piscólogos Portugueses

Porque há pouco tempo - tenho que ir à Trafaria apanhar o barco para Belém, apenas algumas notas sobre os números, sem dúvida o que mais impressiona no primeiro contacto com o 2º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses:
- 2150 participantes;
- 1700 apresentações;
- 98 páginas de um extenso e variado programa;
- 28 países;
- 100 voluntários.
Há aspetos com os quais não concordo ou que preferia que fossem diferentes. Mas, neste momento, isso não importa. Este é o grande encontro da nossa profissão, temos vindo a afirmar-nos e um Congresso desta dimensão é disso evidência. A Ordem dos Psicólogos Portugueses e a comissão organizadora do congresso estão de parabéns. E eu, sinto-me (ainda mais) orgulhoso de ser psicólogo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Em viagem

Costumo dizer que não gosto de transições, de estar "entre", como dizia Mário de Sá Carneiro. É por isso que detesto esperar. Lembro por exemplo quando andava de autocarro, chegava à paragem e o raio do veículo  tinha acabado de partir. Ficava logo com um grande dilema - "espero ou vou a pé"? Normalmente ia a pé. No entanto, tenho que estar sempre de um lado para outro, a minha vida é feita de transições entre contextos.  Percebi então como resolver este problema - tornar a transição o fim em si. Por exemplo, quando ia a pé para a escola ou para os escuteiros (viagens de uns 15 a 20 minutos), fazia autênticas corridas, mais emocionantes do que as fórmula 1, relatadas internamente ao jeito dos relatos de futebol da Radio Renascença, em que ultrapassava os transeuntes que faziam o mesmo percurso que eu. Mais tarde, quando tinha que ir entre o Centro Dr Leonardo Coimbra e O Fio de Ariana, preferia ir a pé. Esses 56 minutos serviam para fazer um "reset" do emaranhado de emoções do qual saia para ir de cabeça fresca para as sessões que ia ter a seguir. Agora estou em viagem, mas não estou apenas entre Porto e Lisboa. Estou com a Di, a minha "preferida não sei de quê", a ter um dos nossos momentos em que falamos de tudo e mais alguma. Ficam desabafos feitos, questões de trabalho alinhavadas, finalizada (ou nem por isso) a comunicação para o congresso e feita esta crónica.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Presos no seu próprio pensamento

A quem nunca aconteceu a sensação de acordar de manhã com uma música na cabeça e não a conseguir tirar de lá durante todo o dia? Ou, então ir conferir várias vezes se a porta do carro ficou bem fechada, mesmo tendo a certeza que sim. Ou, então, a famosa sensação de "será que deixei o ferro [ou o fogão ]ligado"? Normal. Mas acontece por vezes que uma série desses pensamentos irracionais, intrusivos e persistentes tomam conta da vida das pessoas, colocando-as numa verdadeira prisão. Normalmente vêm revestidos de imperativos absolutos - "tenho que... se não...", e de um dúvida persistente "e se..." e associados a sensações de nojo ou culpa. "Passei entre a parede e o poste na rua, tenho que voltar a trás, se não vou para outra dimensão"; "toquei naquele sítio, tenho que tocar outra vez se não vou pensar em sexo"; "Aquele frasco de champô está desalinhado, tenho que o alinhar se não vou ficar gorda"; "Toquei na maçaneta, tenho que lavar as mãos se não vou ficar contaminado"; "estou a pensar num colega que é mau aluno no momento em que comecei a estudar, tenho que ir molhar as mãos para o tirar do pensamento, se não posso ficar mau aluno como ele". Estes são alguns dos exemplos que me têm surgido. E, assim, ficam vidas sob sequestro. O pior é que resolver isto é muito complicado, é que estes pensamentos "maus" são como o Freddy Krueger - quanto mais fazemos para nos afastarmos deles, mais eles nos perseguem. Para além disso, costumam ter um efeito sistémico - não é só a criança ou jovem, mas todo o sistema familiar que é arrastado para esta prisão. Quantas vezes aparecem famílias literalmente "à beira de um ataque de nervos". É por isso que defendo que, quando nos lançamos na tarefa de ajudar a libertar a criança/jovem deste cárcere, não devemos estar sozinhos. Trabalhar em equipa com um terapeuta familiar e com um pedopsiquiatra faz aumentar a probabilidade de sucesso da intervenção do psicólogo. É o que diz a literatura, é o que diz a minha experiência. Assim, é mais provável que se possa vir a ter uma dedicatória do género "ao homem que praticamente me salvou de uma das maiores prisões que posso imaginar". É sobre isto que na quinta-feira de manhã vou falar no II Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses.