Há momentos que ficam. As chamadas "memórias duradouras" que ficam gravadas a fogo e não se degradam. Não são narrativas, palavras que nos contamos, antes "imagens mentais" que, como tão bem descreve António Damásio no seu "Livro da Consciência", não incluem apenas imagens mas também sons, aromas e sensações corporais, e até uma reposição de estados emocionais. Normalmente relacionam-se com eventos da nossa história ou da História universal que, por tão intensos, adquirem está configuração particular. Foi ontem 11 de Setembro. Já lá vão 13 anos, mas quem não se lembra do que fazia, onde estava, o que ouviu, o que sentiu, no momento em que soube dos atentados? Mas, felizmente, não ficam apenas momentos dramáticos. Há por exemplo, no dia do casamento, o momento em que saímos da igreja e, depois do "banho" de arroz, somos abordados por toda aquela gente a felicitar. Há o nascimento de um filho, o ver o nascer do sol no alto do "Pico", o regresso a casa e o abraço da família depois de um longa viagem. E também há momentos que deliberadamente marcamos como sendo para ficar. Momentos eleitos, aos quais, de forma consciente colocamos uma etiqueta que os classifica como tal. Lembro a primeira vez que percebi que estava a fazer isso - Vila Fernando, num tórrido final de Julho, acampamento dos escutas, quando, já noite a dentro, inaugurávamos com um duche refrescante o engenhoso chuveiro que acabávamos de construir. Lembro bem o momento, mas também o facto de o "etiquetar". Ontem, num cacilheiro, a olhar o Tejo no regresso à Trafaria depois de um dia de fortes emoções, enquanto conversava e lembrava alguns desses momentos, acabei por criar mais um.

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