Há pessoas que nos passam pela vida e no ajudam a tornar naquilo que somos:
- os colegas da escola, com quem partilhámos a dor das reguadas por cada erro no ditado e dos joelhos esfolhados num recreio mal preparado para as nossas brincadeiras;
- os primos emigrados, que voltavam em cada Agosto, nos traziam chocolates e castelos de areia, e nos faziam perceber o significado de "família alargada";
- os "irmãos escutas", com quem enfrentámos tantos medos e desafiámos impossíveis;
- a malta do "murinho" lá perto de casa, com quem sentíamos pertencer a um grupo e vivíamos as paixões da adolescência;
- os colegas da faculdade, com quem, entre resumos, noitadas, aulas ensonadas e copianços, partilhámos a tarefa de procurar o conhecimento e com quem desfilámos pela avenida, vestidos de caloiros e de doutores;
- o pessoal do Orfeão com quem aprendemos a dançar, descobrimos novos mundos e novos sentidos para a amizade.
Entretanto, as vidas tomam sentidos diferentes e cada um segue o seu caminho.
Mas, depois, coisa do destino ou da ousadia de algum que o decide enfrentar quando o tempo já começa a ser muito e a saudade aperta, lá estamos alguns de nós, sentados à volta de uma mesa farta, barriguinhas mais inchadas e pele mais enrugada, e uma série de crianças que brincam indiferentes ao que ali está a acontecer. De repente, sem dar por isso, volto a ser:
- a criança que se sente confortável por ter com quem partilhar a dor;
- o menino que saboreia os chocolates trazidos da Alemanha;
- o rapaz que percebe que os impossíveis são para desafiar [não é que o o Tó está mesmo no Gabão?];
- o jovem que sente que tem ali o SEU grupo de amigos;
- o estudante que volta a aprender e que partilha o seu conhecimento com os colegas;
- o orfeonista que dançava, cantava (mesmo que desafinado) e que, depois de uma sangria bem bebida, até vestia toga.
Ui! Estarei a ficar velho?
Não!
Estou vivo,
e rejuvenesço em cada reencontro.

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