Costumo dizer que não gosto de transições, de estar "entre", como dizia Mário de Sá Carneiro. É por isso que detesto esperar. Lembro por exemplo quando andava de autocarro, chegava à paragem e o raio do veículo tinha acabado de partir. Ficava logo com um grande dilema - "espero ou vou a pé"? Normalmente ia a pé. No entanto, tenho que estar sempre de um lado para outro, a minha vida é feita de transições entre contextos. Percebi então como resolver este problema - tornar a transição o fim em si. Por exemplo, quando ia a pé para a escola ou para os escuteiros (viagens de uns 15 a 20 minutos), fazia autênticas corridas, mais emocionantes do que as fórmula 1, relatadas internamente ao jeito dos relatos de futebol da Radio Renascença, em que ultrapassava os transeuntes que faziam o mesmo percurso que eu. Mais tarde, quando tinha que ir entre o Centro Dr Leonardo Coimbra e O Fio de Ariana, preferia ir a pé. Esses 56 minutos serviam para fazer um "reset" do emaranhado de emoções do qual saia para ir de cabeça fresca para as sessões que ia ter a seguir. Agora estou em viagem, mas não estou apenas entre Porto e Lisboa. Estou com a Di, a minha "preferida não sei de quê", a ter um dos nossos momentos em que falamos de tudo e mais alguma. Ficam desabafos feitos, questões de trabalho alinhavadas, finalizada (ou nem por isso) a comunicação para o congresso e feita esta crónica.
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