Ao fim de semana acordar a horas de dia de semana.
Miúdos mal humorados por causa disso.
Viagem pela A4 para a quinta.
Os mais velhos dormem.
A pequenita vai acordada.
“Oh pai, isto é normal,
os mais velhos a dormir,
e eu, a mais a nova, acordada?”
[Sim, é normal, pensei, para além de se terem deitado mais tarde, na adolescência as pessoas tornam-se mais vespertinas e menos matutinas - tem a ver com o cortisol].
Chegar cedo, mas já atrasado - a safra já vai adiantada.
As mulheres na cozinha já preparam o lanche da manhã.
Pegar no balde, tesoura de poda e juntar-me ao pessoal.
O sol brilha mas a ramada está molhada.
Restos dos aguaceiros de manhã cedo.
Está lá o mano que não via há meses.
Os cachos que se enrolam no ramo dão luta.
Às vezes ficam esborrachados logo ali,
e o sumo de uva escorre pelas mãos.
Acabou o campo do meio.
Hora da bucha.
Verde branco e tinto,
Chouriço assado, presunto, salsicha fresca e bifanas,
no pão acabadinho de trazer.
De volta, agora ao campo de baixo,
despachado num instante.
Canta-se a “Laurindinha”
e o “Tu só tu, Ana Maria”,
Desta vez o rádio do trator não toca música pimba,
vai dando notícias, o que recebeu o primeiro ministro.
Recolhem-se os últimos cestos,
Os miúdos vão no trator.
Na idade deles ia no carro de bóis.
Eles mesmos tiram os cestos do trator,
“o trabalho em família elevado a um outro patamar!”.
As uvas são despejadas no lagar,
Juntando-se ao “Vu”, os miúdos saltam lá para dentro e pisam;
o sumo de uva jorra pela torneira,
bagaço vai para a prensa,
os homens (alguns) apertam a prensa.
Fica a escorrer.
Lavam-se os cestos,
ainda é vindima!
Os miúdos tomam banho de mangueira.
Hora do almoço - cozido à portuguesa e mesa cheia,
posta cá fora.
Come-se, bebe-se (o verde do ano passado),
Fala-se alto, bem alto, e ri-se, muito.
Vem a sobremesa - o bolo de um aniversário atrasado.
Barriga cheia, bem cheia,
e sentidos algo atordoados pelo álcool.
Começa a dar a moleza.
Caminhada até ao café mais próximo.
A subida custa bem,
o que vale é que no regresso é a descer.
Café cheio, como de costume,
os miúdos um gelado,
e o mano, a Super-Bock gelada,
do costume.
De volta à`quinta,
A mesa já arrumada e a louça lavada,
era o que esperava, confesso!
Deito-me na relva fresca,
a cadela deita-se ao meu lado.
Fecho os olhos,
Oiço ao longe a trovoada que se aproxima.
Sei que vai chover, mas não importa,
enquanto não chove,
aproveito cada segundo daquela eternidade.
E penso:
- “Uau, que dia!
Quando chegar a casa,
vou escrever sobre isto”.

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