quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Reflexão acerca da auto-estima

- ”O que queres ser quando fores grande?”
- “Bailarina”, disse ela.
Ela tem 9 anos e paralisia cerebral - uma hemiparesia que compromete os seus movimentos.
Sendo a auto-estima, de uma forma muito simplista, a diferença entre o auto-conceito real (aquilo que sou ou acho que sou) e o auto-conceito ideal (aquilo que eu gostaria de ser), a solução mais fácil para a criança resolver esta equação seria preservar o seu ideal e, refugiando-se num registo de fantasia, distorcer artificialmente aquilo que é, como que fazendo de conta que, de facto, é uma grande bailarina, que dá grandes saltos e piruetas como aquelas que vê no youtube quando escreve ballet com “t” (tantas vezes fui vendo este registo de “aquilo que me é vetado eu faço de conta”). Então, quando alguém ou alguma evidência lhe viesse mostrar o contrário, ficaria furiosa, eventualmente até agressiva e diria que a culpa é dos outros, que eles é que não entendem nada. Poderia muits vezes parecer uma “patetinha”, mas iria proteger a sua auto-estima. Quantas vezes os pais, para evitar que os filhos “sofram”, alimentam esta fuga à realidade! Mas também há o risco contrário, que tendo consciência das suas dificuldades, se aperceba que esse ideal (os saltos e as piruetas da bailarinas do youtube) lhe está vetado e que, por isso, “se vá abaixo das canetas”. Aquilo que é (ou pensa que é) passa a ser responsável pelo desmoronar do seu ideal e, por isso, deixa de ter valor, desanima e começa a acreditar que nada (ou pouco) vale a pena. Num caso destes, como em tantas situações da nossa vida, a solução passa por mexer em ambas as dimensões da equação: 1. encontrar ideais “realistas” (e.g. recorrendo a exemplos ou a modelos) - “claro que podes ser bailarina, mas já sabes que é dificil que possas dar esses saltos e fazer essas piruetas… mas há bailarinos que conseguem fazer outras coisas fantásticas que também podes fazer”; 2. incrementar o desempenho pessoal, com trabalho, esforço e dedicação, mas também permitindo que obtenha realizações que sejam valorizadas por si e pelos outros - dar-lhe aulas, ensaios, um palco, o vestido de ballet, uma coreografia adequada, em interação com colegas, e… aplausos.
- “Assim, sim, claro que podes e hás-de ser bailarina”.
A dança é uma magnífica forma de expressão e ”ser bailarina” pode mesmo ser o melhor da vida desta criança.
Lembrei-me então do projeto A-ju-dança  um projeto de dança inclusiva, agora um serviço da IN-Associação para a Inclusão ao Longo da Vida, a que tive a oportunidade de assistir de forma emocionada, há poucas semanas, no auditório de Serralves. Vão ao Facebook deles dar uma vista de olhos e vejam que grandes bailarinos eles são!



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