A quem nunca aconteceu a sensação de acordar de manhã com uma música na cabeça e não a conseguir tirar de lá durante todo o dia? Ou, então ir conferir várias vezes se a porta do carro ficou bem fechada, mesmo tendo a certeza que sim. Ou, então, a famosa sensação de "será que deixei o ferro [ou o fogão ]ligado"? Normal. Mas acontece por vezes que uma série desses pensamentos irracionais, intrusivos e persistentes tomam conta da vida das pessoas, colocando-as numa verdadeira prisão. Normalmente vêm revestidos de imperativos absolutos - "tenho que... se não...", e de um dúvida persistente "e se..." e associados a sensações de nojo ou culpa. "Passei entre a parede e o poste na rua, tenho que voltar a trás, se não vou para outra dimensão"; "toquei naquele sítio, tenho que tocar outra vez se não vou pensar em sexo"; "Aquele frasco de champô está desalinhado, tenho que o alinhar se não vou ficar gorda"; "Toquei na maçaneta, tenho que lavar as mãos se não vou ficar contaminado"; "estou a pensar num colega que é mau aluno no momento em que comecei a estudar, tenho que ir molhar as mãos para o tirar do pensamento, se não posso ficar mau aluno como ele". Estes são alguns dos exemplos que me têm surgido. E, assim, ficam vidas sob sequestro. O pior é que resolver isto é muito complicado, é que estes pensamentos "maus" são como o Freddy Krueger - quanto mais fazemos para nos afastarmos deles, mais eles nos perseguem. Para além disso, costumam ter um efeito sistémico - não é só a criança ou jovem, mas todo o sistema familiar que é arrastado para esta prisão. Quantas vezes aparecem famílias literalmente "à beira de um ataque de nervos". É por isso que defendo que, quando nos lançamos na tarefa de ajudar a libertar a criança/jovem deste cárcere, não devemos estar sozinhos. Trabalhar em equipa com um terapeuta familiar e com um pedopsiquiatra faz aumentar a probabilidade de sucesso da intervenção do psicólogo. É o que diz a literatura, é o que diz a minha experiência. Assim, é mais provável que se possa vir a ter uma dedicatória do género "ao homem que praticamente me salvou de uma das maiores prisões que posso imaginar". É sobre isto que na quinta-feira de manhã vou falar no II Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

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