sábado, 27 de setembro de 2014

Dia de vindima

Ao fim de semana acordar a horas de dia de semana.
Miúdos mal humorados por causa disso.
Viagem pela A4 para a quinta.
Os mais velhos dormem.
A pequenita vai acordada.
“Oh pai, isto é normal,
os mais velhos a dormir,
e eu, a mais a nova, acordada?”
[Sim, é normal, pensei, para além de se terem deitado mais tarde, na adolescência as pessoas tornam-se mais vespertinas e menos matutinas - tem a ver com o cortisol].
Chegar cedo, mas já atrasado - a safra já vai adiantada.
As mulheres na cozinha já preparam o lanche da manhã.
Pegar no balde, tesoura de poda e juntar-me ao pessoal.
O sol brilha mas a ramada está molhada.
Restos dos aguaceiros de manhã cedo.
Está lá o mano que não via há meses.
Os cachos que se enrolam no ramo dão luta.
Às vezes ficam esborrachados logo ali,
e o sumo de uva escorre pelas mãos.
Acabou o campo do meio.
Hora da bucha.
Verde branco e tinto,
Chouriço assado, presunto, salsicha fresca e bifanas,
no pão acabadinho de trazer.
De volta, agora ao campo de baixo,
despachado num instante.
Canta-se a “Laurindinha”
e o “Tu só tu, Ana Maria”,
Desta vez o rádio do trator não toca música pimba,
vai dando notícias, o que recebeu o primeiro ministro.
Recolhem-se os últimos cestos,
Os miúdos vão no trator.
Na idade deles ia no carro de bóis.
Eles mesmos tiram os cestos do trator,
“o trabalho em família elevado a um outro patamar!”.
As uvas são despejadas no lagar,
Juntando-se ao “Vu”, os miúdos saltam lá para dentro e pisam;
o sumo de uva jorra pela torneira,
bagaço vai para a prensa,
os homens (alguns) apertam a prensa.
Fica a escorrer.
Lavam-se os cestos,
ainda é vindima!
Os miúdos tomam banho de mangueira.
Hora do almoço - cozido à portuguesa e mesa cheia,
posta cá fora.
Come-se, bebe-se (o verde do ano passado),
Fala-se alto, bem alto, e ri-se, muito.
Vem a sobremesa - o bolo de um aniversário atrasado.
Barriga cheia, bem cheia,
e sentidos algo atordoados pelo álcool.
Começa a dar a moleza.
Caminhada até ao café mais próximo.
A subida custa bem,
o que vale é que no regresso é a descer.
Café cheio, como de costume,
os miúdos um gelado,
e o mano, a Super-Bock gelada,
do costume.
De volta à`quinta,
A mesa já arrumada e a louça lavada,
era o que esperava, confesso!
Deito-me na relva fresca,
a cadela deita-se ao meu lado.
Fecho os olhos,
Oiço ao longe a trovoada que se aproxima.
Sei que vai chover, mas não importa,
enquanto não chove,
aproveito cada segundo daquela eternidade.
E penso:
- “Uau, que dia!
Quando chegar a casa,
vou escrever sobre isto”.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Serão de domingo

O serão de domingo tem tudo para ser um excelente momento de encontro em família. Nesse dia dormiu tudo (ou quase tudo) até mais tarde e, por isso, o "João Pestana" tarda mais em chegar. Para além disso, dá mesmo vontade de prolongar mais o dia, como se esticássemos o fim-de-semana e fizéssemos adiar a segunda-feira o mais possível. A televisão até poderia dar uma ajuda nesse sentido, criando pretextos para que a família se reunísse em torno de um programa de entretenimento. Como me lembro da minha infância e juventude em que um programa de televisão e uma caixa de "sortido fino" eram o motivo para que nos encontrássemos. Mas, atualmente, três fatores fazem com que o risco seja o de que a televisão seja sim pretexto para que cada um esteja no seu canto: 1. a variedade da programação; 2. a multiplicidade de ecrãs; 3. a concorrência e os horários da programação. Há de facto muitos mais canais e as pessoas podem escolher programas que mais se adequem aos seus gostos e interesses. Esta diversidade e o poder de escolher "o quê" e "quando" ver é aliás, uma das grandes vantagens da televisão de hoje. Mas há os "diretos", e os "primeiros" e os "últimos" episódios, coisas que dá vontade de ver naquele momento para que, no dia seguinte, se possa comentar com o pessoal. Ontem, entre uma série de outras coisas, deu o jogo do Porto, o último episódio da telenovela da SIC, o direto e primeiro episódio da casa dos segredos 5. Não questiono sequer a qualidade de cada um destes conteúdos. O que se passa é que, com tantos ecrãs em casa, cada qual pode decidir ir para um ecrã, sozinho, ver o que lhe apetece: vou para o quarto ver um filme no AXN, vou ver a casa dos segredos no PC, fico na sala a ver o Fator X. Os muitos ecrãs fazem aumentar o individualismo e limitam as possibilidades de encontro entre pessoas. E depois há a concorrência e os horários tardios. Os miúdos têm que se levantar cedo na segunda de manhã (e já agora, os adultos também) e não devem ficar até às tantas para saber quem é expulso ou quem é escolhido pelo público ou como acaba um filme que começou à hora em que se devia estar a ir deitar. Com isto, o serão de domingo que poderia ser um privilegiado momento de encontro de família, pode-se tornar um pesadelo e motivo de verdadeiro conflito ou, pior, de resignação, com cada um para o seu lado. Devemos contrariar isto. São os adultos que devem gerir os recursos e as rotinas da família:
- "Só um ecrã vai estar ligado, vamos conversar e discutir qual o programa que vai ser visto, em família" (assim, até podemos decidir o que está vetado!);
- "Às tantas horas vamos para a cama, se o programa não chegar ao fim, vemos amanhã o resto" (afinal uma das vantagens da tecnologia).
Parece bem?

sábado, 20 de setembro de 2014

Olhando as estrelas

Olhando as estrelas aprendi coisas maravilhosas:
- que umas, as azuis, são as mais novas;
- outras, as vermelhas, as mais velhas;
- e que outras, as castanhas, são de meia idade;
- que a que mais brilha é a Sirius;
- que a Polar indica o Norte;
- que juntas formam constelações;
- a que os antigos deram nomes, conforme o que lhes parecia;
- a identificar e a chamar algumas pelo nome;
- as Ursas (maior e menor);
- a Orion (a minha preferida);
- a Cassiopeia (um W que vai girando no céu);
- que o sol, afinal, é bem pequeno;
- e que vai engolir a terra;
- mas só daqui a bilhões de anos (uff");
- que as cadentes, afinal não são estrelas;
- simples "calhaus" do tamanho de bolas de golfe;
- que as vemos melhor se as olharmos de lado;
- que algumas estão a milhares de anos luz;
- o sol a oito minutos;
- que olhar as estrelas é maravilhoso;
- melhor se com amigos;
- melhor ainda, se de costas deitadas numa rocha na serra da Freita,
- ou caminhando numa rua deserta e escura na serra do Gerês.
Amigos e estrelas combinam mesmo bem!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Laços que não se vêm



Não foram laços de sangue que fizeram os patinhos seguir Konrad Lorenz. Chamou-lhes "imprinting" - assim que saem do ovo, a imagem do primeiro ser com que se deparam fica como que "impressa" e esse ser é por eles adotado como progenitor. No ser humano foi recebendo outros nomes como apego ou vinculação. Descoberta fantástica esta, a de que não é o sangue que nos torna filhos ou pais de alguém. Como é maravilhosa a natureza! Assim, nenhuma cria precisa de ficar orfã e nenhum adulto privado de ser Pai. A mim, a vida, sem que sangue fosse necessário, deu-me uma irmã e uma filha. E que dádiva! Não fui somente eu que as adotei. Também elas me adotaram e ficámos ligados por esses laços que não se vêm. Às vezes, em dias de tempestade como estes que nos têm assolado, vem uma pequena insegurança - será que os laços se vão aguentar, serão eles mais frágeis por não serem lacrados a sangue? Mas não. Rapidamente percebemos que não e a maior das tempestades fica reduzida ao borbulhar num copo de água. São de facto indestrutíveis, são laços que ficam para sempre.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

O primeiro dia

Primeiro dia do novo ano escolar. Levantar mais cedo, mas o mais cedo não é cedo o suficiente. E os passos ensonados, apesar de mais acelerados que o costume, também não são rápidos o suficiente. E começa a correria. O cabelo mal penteado, os dentes por lavar, os cereais que ficam na taça, o café entornado na toalha, o lanche ainda por fazer, o computador ainda por arrumar na mochila (e o carregador que não aparece!), e como é o almoço de amanhã, tem de tirar a senha hoje? Com isto, a tempestade que está lá fora é irrisória quando comparada com o furacão que vira do avesso o humor de toda a gente. E o relógio que não deixa de andar. Já são 8:10 e a menina entra às 8:25. Bolas, vai chegar atrasada logo no primeiro dia. Talvez não, talvez não haja trânsito. Mas há, claro! Ainda por cima chove copiosamente. O caminho faz-se devagarinho, muito devagarinho. E parece que toda a gente resolveu meter-se no nosso caminho. "E o papel que trouxeste para preencher, está direitinho?". "Hi, não, esqueci-me". Com a letra mal amanhada vai preenchendo o impresso enquanto o carro avança aos solavancos. Chegamos. Seis minutos de atraso. A professora acabou de entrar com os meninos. E o impresso ainda não está todo preenchido. "Dá cá, eu acabo". Pronto. De puxão sai do carro. Chega ao portão. Esqueceu-se da carteira no carro. Volta atrás a correr. "Isto de ir de carteirinha para a escola ainda vai dar para o torto" (já deu, logo no primeiro dia!). Entrou. Ficou. De regresso ao carro. Uff. Pela primeira vez na última hora, respiro fundo. Percebo que nem tempo para escrever. Amanhã temos que acordar mais cedo!

domingo, 14 de setembro de 2014

Reencontros

Há pessoas que nos passam pela vida e no ajudam a tornar naquilo que somos:
- os colegas da escola, com quem partilhámos a dor das reguadas por cada erro no ditado e dos joelhos esfolhados num recreio mal preparado para as nossas brincadeiras;
- os primos emigrados, que voltavam em cada Agosto, nos traziam chocolates  e castelos de areia, e nos faziam perceber o significado de "família alargada";
- os "irmãos escutas", com quem enfrentámos tantos medos e desafiámos impossíveis;
- a malta do "murinho" lá perto de casa, com quem sentíamos pertencer a um grupo e vivíamos as paixões da adolescência;
- os colegas da faculdade, com quem, entre resumos, noitadas, aulas ensonadas e copianços, partilhámos a tarefa de procurar o conhecimento e com quem desfilámos pela avenida, vestidos de caloiros e de doutores;
- o pessoal do Orfeão com quem aprendemos a dançar, descobrimos novos mundos e novos sentidos para a amizade.
Entretanto, as vidas tomam sentidos diferentes e cada um segue o seu caminho.
Mas, depois, coisa do destino ou da ousadia de algum que o decide enfrentar quando o tempo já começa a ser muito e a saudade aperta, lá estamos alguns de nós, sentados à volta de uma mesa farta, barriguinhas mais inchadas e pele mais enrugada, e uma série de crianças que brincam indiferentes ao que ali está a acontecer. De repente, sem dar por isso, volto a ser:
- a criança que se sente confortável por ter com quem partilhar a dor;
- o menino que saboreia os chocolates trazidos da Alemanha;
- o rapaz que percebe que os impossíveis são para desafiar [não é que o o Tó está mesmo no Gabão?];
- o jovem que sente que tem ali o SEU grupo de amigos;
- o estudante que volta a aprender e que partilha o seu conhecimento com os colegas;
- o orfeonista que dançava, cantava (mesmo que desafinado) e que, depois de uma sangria bem bebida, até vestia toga.
Ui! Estarei a ficar velho?
Não!
Estou vivo,
e rejuvenesço em cada reencontro.

sábado, 13 de setembro de 2014

Notas sobre o 2º Congresso da Ordem dos Psicólogos - II

Se impressiona pela questão dos números, este 2º Congresso da Ordem dos Psicólogos impressiona também pela organização - um acolhimento rápido e eficaz; cumprimento rigoroso dos horários; um "datadesk" onde quem ia fazer a comunicação descarregava a sua comunicação com antecedência; voluntários extremosos que, assumindo plenamente as suas funções, faziam com que nada faltasse e com que tudo decorresse pelo melhor na "sua" sessão. Muito bem. No meu entendimento, estão todos de parabéns. Uma breve referência ao que mais me marcou em termos de conteúdos, aquilo a que consegui assistir (sim, porque com uma tão grande diversidade, foi inevitável por vezes experimentar uma sensação de perda):
- o Simpósio sobre o Modelo de Complementaridade Paradigmática - para além do brilhantismo do Professor Branco Vasco, que já tinha admirado há dois anos atrás na sequência da sua apresentação sobre os princípios de uma Psicologia Integrativa, foi possível assistir à apresentação e ilustração de um modelo de psicoterapia com o qual me identifico. Fiquei com vontade de o estudar e de o utilizar.
- o Simpósio sobre os conflitos de interesses na Psicologia - foi possível assistir a váriase interessantes explicações sobre alguns aspetos do nosso Código Deontológico, nomeadamente as relações múltiplas, duplicação de intervenções e as hierarquias institucionais, mas o que destaco foi o excelente trabalho de síntese e reflexão que a Professora Inês Nascimento apresentou sobre o tema da "Referenciação". Tantos aspetos importantes! Trouxe muito com que pensar.
- o Simpósio sobre os relatórios Psicológicos, com uma muito interessante apresentação do Professor Mário Simões - apesar de ainda haver sempre aspetos a melhorar, foi bom sentir que estamos a fazer um bom trabalho!
- a quantidade de comunicações com relatos de experiências em que os psicólogos utilizam várias dimensões artísticas como recurso terapêutico - dominar ou ter acesso a ferramentas artísticas (pintura, dança, música, teatro,...) pode de facto trazer importantes contributos para o processo de intervenção psicológica.
Acabou. Participar neste Congresso foi um importante momento de formação e valorização pessoal e profissional. Venha o próximo!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Momentos que ficam

Há momentos que ficam. As chamadas "memórias duradouras" que ficam gravadas a fogo e não se degradam. Não são narrativas, palavras que nos contamos, antes "imagens mentais" que, como tão bem descreve António Damásio no seu "Livro da Consciência", não incluem apenas imagens mas também sons, aromas e sensações corporais, e até uma reposição de estados emocionais. Normalmente relacionam-se com eventos da nossa história ou da História universal que, por tão intensos, adquirem está configuração particular. Foi ontem 11 de Setembro. Já lá vão 13 anos, mas quem não se lembra do que fazia, onde estava, o que ouviu, o que sentiu, no momento em que soube dos atentados? Mas, felizmente, não ficam apenas momentos dramáticos. Há por exemplo, no dia do casamento, o momento em que saímos da igreja e, depois do "banho" de arroz, somos abordados por toda aquela gente a felicitar. Há o nascimento de um filho, o ver o nascer do sol no alto do "Pico", o regresso a casa e o abraço da família depois de um longa viagem. E também há momentos que deliberadamente marcamos como sendo para ficar. Momentos eleitos, aos quais, de forma consciente colocamos uma etiqueta que os classifica como tal. Lembro a primeira vez que percebi que estava a fazer isso - Vila Fernando, num tórrido final de Julho, acampamento dos escutas, quando, já noite a dentro, inaugurávamos com um duche refrescante o engenhoso chuveiro que acabávamos de construir. Lembro bem o momento, mas também o facto de o "etiquetar". Ontem, num cacilheiro, a olhar o Tejo no regresso à Trafaria depois de um dia de fortes emoções, enquanto conversava e lembrava alguns desses momentos, acabei por criar mais um.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Notas sobre o 2º Congresso da Ordem dos Piscólogos Portugueses

Porque há pouco tempo - tenho que ir à Trafaria apanhar o barco para Belém, apenas algumas notas sobre os números, sem dúvida o que mais impressiona no primeiro contacto com o 2º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses:
- 2150 participantes;
- 1700 apresentações;
- 98 páginas de um extenso e variado programa;
- 28 países;
- 100 voluntários.
Há aspetos com os quais não concordo ou que preferia que fossem diferentes. Mas, neste momento, isso não importa. Este é o grande encontro da nossa profissão, temos vindo a afirmar-nos e um Congresso desta dimensão é disso evidência. A Ordem dos Psicólogos Portugueses e a comissão organizadora do congresso estão de parabéns. E eu, sinto-me (ainda mais) orgulhoso de ser psicólogo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Em viagem

Costumo dizer que não gosto de transições, de estar "entre", como dizia Mário de Sá Carneiro. É por isso que detesto esperar. Lembro por exemplo quando andava de autocarro, chegava à paragem e o raio do veículo  tinha acabado de partir. Ficava logo com um grande dilema - "espero ou vou a pé"? Normalmente ia a pé. No entanto, tenho que estar sempre de um lado para outro, a minha vida é feita de transições entre contextos.  Percebi então como resolver este problema - tornar a transição o fim em si. Por exemplo, quando ia a pé para a escola ou para os escuteiros (viagens de uns 15 a 20 minutos), fazia autênticas corridas, mais emocionantes do que as fórmula 1, relatadas internamente ao jeito dos relatos de futebol da Radio Renascença, em que ultrapassava os transeuntes que faziam o mesmo percurso que eu. Mais tarde, quando tinha que ir entre o Centro Dr Leonardo Coimbra e O Fio de Ariana, preferia ir a pé. Esses 56 minutos serviam para fazer um "reset" do emaranhado de emoções do qual saia para ir de cabeça fresca para as sessões que ia ter a seguir. Agora estou em viagem, mas não estou apenas entre Porto e Lisboa. Estou com a Di, a minha "preferida não sei de quê", a ter um dos nossos momentos em que falamos de tudo e mais alguma. Ficam desabafos feitos, questões de trabalho alinhavadas, finalizada (ou nem por isso) a comunicação para o congresso e feita esta crónica.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Presos no seu próprio pensamento

A quem nunca aconteceu a sensação de acordar de manhã com uma música na cabeça e não a conseguir tirar de lá durante todo o dia? Ou, então ir conferir várias vezes se a porta do carro ficou bem fechada, mesmo tendo a certeza que sim. Ou, então, a famosa sensação de "será que deixei o ferro [ou o fogão ]ligado"? Normal. Mas acontece por vezes que uma série desses pensamentos irracionais, intrusivos e persistentes tomam conta da vida das pessoas, colocando-as numa verdadeira prisão. Normalmente vêm revestidos de imperativos absolutos - "tenho que... se não...", e de um dúvida persistente "e se..." e associados a sensações de nojo ou culpa. "Passei entre a parede e o poste na rua, tenho que voltar a trás, se não vou para outra dimensão"; "toquei naquele sítio, tenho que tocar outra vez se não vou pensar em sexo"; "Aquele frasco de champô está desalinhado, tenho que o alinhar se não vou ficar gorda"; "Toquei na maçaneta, tenho que lavar as mãos se não vou ficar contaminado"; "estou a pensar num colega que é mau aluno no momento em que comecei a estudar, tenho que ir molhar as mãos para o tirar do pensamento, se não posso ficar mau aluno como ele". Estes são alguns dos exemplos que me têm surgido. E, assim, ficam vidas sob sequestro. O pior é que resolver isto é muito complicado, é que estes pensamentos "maus" são como o Freddy Krueger - quanto mais fazemos para nos afastarmos deles, mais eles nos perseguem. Para além disso, costumam ter um efeito sistémico - não é só a criança ou jovem, mas todo o sistema familiar que é arrastado para esta prisão. Quantas vezes aparecem famílias literalmente "à beira de um ataque de nervos". É por isso que defendo que, quando nos lançamos na tarefa de ajudar a libertar a criança/jovem deste cárcere, não devemos estar sozinhos. Trabalhar em equipa com um terapeuta familiar e com um pedopsiquiatra faz aumentar a probabilidade de sucesso da intervenção do psicólogo. É o que diz a literatura, é o que diz a minha experiência. Assim, é mais provável que se possa vir a ter uma dedicatória do género "ao homem que praticamente me salvou de uma das maiores prisões que posso imaginar". É sobre isto que na quinta-feira de manhã vou falar no II Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Sobre a derrota de Portugal frente à Albânia

Assisti ao vivo ao descalabro da nossa seleção nacional frente à Albânia - o meu mano Zé ofereceu os bilhetes e lá fui com o papá, o mano Pedro e o "Cunhas" Miguel. Sim, preferia que tivessem ganho. Mas não importa assim tanto. Falharam os objetivos daquele grupo de trabalho, nomeadamente atletas e treinador, mas não falharam os meus objetivos pessoais. Lá fomos ver a bola, comer a bifana e beber a "b'jeca", fazer parte da "onda" que invadiu o estádio para animar a noite num jogo francamente aborrecido, protestar, assobiar, apupar e outras coisas que não adianta pormenorizar, tanto o árbitro, como os jogadores adversários (confesso que o guarda-redes adversário me estava a tirar do sério com o tempo que demorava a por a bola em jogo em cada pontapé de baliza), como até os nossos jogadores e, no fim, enquanto esperávamos que o trânsito desanuviasse, falar da vida ou, então, simplesmente nada dizer, A seleção perdeu o jogo mas eu ganhei um fim de dia bem passado com algumas das pessoas que mais adoro. Venham mais.

domingo, 7 de setembro de 2014

"Raios e Coriscos"


Por estes dias estive numa destas reuniões. Quem nunca esteve? Começa com um silêncio constrangedor. Sente-se o nervosinho no ar à espera da deixa que funcione como ignição. Depois começam os "raios e coriscos". E tudo serve para arremesso: divergências antigas não resolvidas, vaidades e triunfos pessoais; chavões éticos e morais; galões e conceitos (pseudo)científicos; leis, regulamentos, estatutos e outras regras tantas vezes esquecidos mas que agora surgem como os "10 mandamentos" da organização que precisam de ser protegidos dos hereges que os desafiam. Entretanto alguém, que até tem estado mais por fora, diz: "ei, já repararam que até estão todos a dizer a mesma coisa?". Um súbito silêncio... e lá se volta ao mesmo. Há quem se levante e vá embora. Há quem amue e se cale. Há quem assiste estarrecido - "ups, afinal isto é assim?". Há quem ache que por iluminação divina todos se devem calar para ouvir as suas palavras sábias e colaboradoras. E entretanto esquece-se o objetivo da reunião, os problemas ficam por resolver, as tarefas por dividir e a organização vai definhando. No entanto, todos ficarão de consciência tranquila - a culpa há-de ser sempre do outro. Para uns a culpa é dos déspotas da Direção que são uns arrogantes e incompetentes, só fazem o que lhes apetece e que foram para ali pelo prazer de mandar e para fazer afundar o barco; que antes de ir para a Direção eram uma coisa e agora que foram eleitos são outra. Para os outros a culpa é dos baldas, que nunca fazem nada e só estão ali para atrapalhar e para "ir buscar o seu"; que estão sempre do contra; que quando eram Direção eram uma coisa e que agora que já não o são estão completamente diferentes. Haja paciência!

sábado, 6 de setembro de 2014

Notas soltas sobre o CNaPPES 2014

Sim, correu bem a nossa participação no CNaPPES 2014. Apesar de simples, o nosso trabalho estava muito bem arrumadinho. Algumas notas soltas sobre o congresso:
- 121 participantes e 93 comunicações - muito pouco para um congresso nacional, transversal a todo o Ensino Superior, independentemente das áreas disciplinares. Apesar de importante, e de várias comunicações ao longo do congresso destacarem a sua importância, de entre os vários papeis do professor universitários, o de docente parece mesmo estar a ser relegado para um plano secundário. Principalmente a investigação e a importância que lhe vem sendo dada tanto na progressão na carreira docente, como na acreditação dos próprios estabelecimentos de ensino superior, parecem ser os principais responsáveis por esta situação. Retive no entanto uma expressão de Barnett (1997) referida por Flávia Moreira de que "ser bom professor é, antes de mais, um imperativo moral".
- Muito interessante a implementação do modelo Problem Based Learning (PBL) na universidade de Aalbog, apresentado pela Aida Guerra. Há coisas que parecem utopia mas que afinal são mesmo possíveis.
- A existência de várias comunicação a destacar a importância do papel ativo dos alunos, a aprendizagem cooperativa e a avaliação pelos pares.
- A praticamente ausência de pessoas da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Com a exceção de Rui Trindade que apresentou uma interessante experiência pedagógica no acolhimento de uma estudante timorence (prova de que o Ensino Superior não tem que ser massificado), não vi mais intervenções da FPCEUP. Estranho, é afinal a faculdade que mais se deveria preocupar com o estudo destas questões!
- Pelo contrário, impressiona a importância que na área da saúde (medicina, enfermagem e até medicina dentária) dão a estas questões da pedagogia. Não posso aliás deixar de reconhecer a excelência do trabalho apresentado por João Cerqueira da Universidade do Minho sobre o uso da metodologia "Objetive Structured Clinical Examination" (OSCE).
- O brilhantismo do Professor Daniel Moura, sempre atento, perspicaz e provocador nas suas intervenções. É um orgulho pertencer a uma comunica académica que tem pessoas como esta.
- Muito interessante a apresentação feita pela Elizabete Loureiro sobre as comeptências de comunicação clínca. Fiz parte do grupo de controlo do estudo realizado e, agora, procurarei fazer parte da "task force" anunciada para a implementação do modelo apresentado a áreas clínicas específicas. É uma das grandes vantagens destes encontros - fazem-nos perceber novas áreas de atuação e permitem-nos construir pontes.
- Finalmente, fiquei muito orgulhoso pela participação da FMDUP - para além da comunicação apresentada por mim e pela Benedita, pela comunicação da Maria de Lurdes e pelo reconhecimento que a audiência fez ao "Paranhos Sorridente", e pelo entusiasmo de Cristina Pollman ao apresentar a forma como a equipa de Ortodontia utiliza o Moodle.

Espero estar presente em Leiria no CNaPPES 2015 apresentando novo trabalho relacionado com as práticas pedagógicas na FMDUP.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Uma amizade tão especial!


Amanhã começa a quinta temporada do GDJ-Entr’amigos, o Grupo de Vida Social Apoiada que em 2010 fundei com a minha colega e amiga Ana Rita Amado. Hoje há mais três: o mini-clube Kids, o mini-clube Maxi e o Clube+IN, agora desenvolvidos em parceria com a IN-Associação para a Inclusão ao Longo da Vida. Durante estes anos temos a vindo desenvolver um modelo de trabalho em se pretende proporcionar a pessoas com diversas limitações ao nível das funções do corpo a pertença a um grupo de amigos. É impossível sermos profissionais num trabalho deste género sem que nós próprios nos demos enquanto pessoas e nos coloquemos no papel de... amigos. Fui Escuta durante muitos anos e ainda me lembro bem dos 10 artigos da Lei (tantas vezes os "papagaiei" em cada formatura!), sendo que o 4º diz que " O Escuta é amigo de todos e irmão de todos os outros Escutas". Nestes nossos grupos, independentemente dos diferentes papeis que cada um ocupa (sócios efetivos Vs sócios profissionais), nisso, somos todos iguais, estamos no mesmo patamar - somos amigos uns dos outros. Agora, passados estes anos, volto a sentir (como o senti tantas vezes quando trabalhei na APPACDM de Matosinhos) que mais do que trabalhar com aquelas pessoas, partilho a minha vida com elas. Elegi-as para serem parte daqueles a quem chamo de amigos. Mas, como nisto da amizade a reciprocidade é fundamental, sinto que também por eles fui eleito. Por isso, por me proporcionarem esta amizade tão especial, um bem hajam. E que o dia de amanhã venha depressa pois estou cheio de saudades vossas, de fazer as minhas parvoíces e de ver o ar de "censura cúmplice" da Ritinha para que me porte bem e não dê maus exemplos.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

“streamers” e “youtubers”


Ontem, ele (e mais 38388 pessoas), 15 anos, estava a ver um tal de “Lyrik” jogar SIMS 4 no “Twitch”. E ria  como eu ria quando via uma comédia do Jerry Lewis. Ela, 9 anos, via no youtube várias versões da banda sonora do “Frozen”. E cantava e dançava. De vez em quando lá me chamava para ver algum pormenor mais interessante. Durante o dia já tinha visto o último vídeo do “pewdiepie” - um jovem Sueco de 24 anos, de seu nome Felix Kjellberg, dono do canal no youtube com mais de assinantes (mais de 29 milhões). Basicamente faz “gameplays” ou seja, filma-se enquanto joga e vai soltando as suas reações espontâneas (muitas delas no mais vernáculo jargão inglês - e.g. “ei fucking shit”) e coloca os vídeos no youtube. Rapidamente cada um dos seus vídeos  chega à marca dos 4 milhões de visualizações. Ela é uma dos seus “Bros” (forma “carinhosa” como se dirige a quem o vê). Não estamos a falar de fenómenos como os "Porta dos Fundos" ou, numa menor escala, o açoriano "Helfimed", em que se produzem conteúdos (neste caso de carácter humorístico), mas sim de, simplesmente, ver os outros jogar (seja em direto, nos "streams", ou em diferido, no youtube). Isto é bom ou mau? Sinceramente, não sei! Se calhar não tem que ser nem uma coisa, nem outra. Certamente tem coisas boas. Ela, por exemplo, com 9 anos, à custa disto, é absolutamente fluente no inglês. Mas também deve haver riscos. Vou pensar melhor nisto, fazer umas leituras, e voltarei a este assunto. Entretanto, como sempre, nós, pais, devemos manter o nosso papel de mediação - definir tempos e organizar as rotinas; selecionar conteúdos e fazer visionamento partilhado para discutir e refletir sobre o que vai sendo visto.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Reflexão acerca da auto-estima

- ”O que queres ser quando fores grande?”
- “Bailarina”, disse ela.
Ela tem 9 anos e paralisia cerebral - uma hemiparesia que compromete os seus movimentos.
Sendo a auto-estima, de uma forma muito simplista, a diferença entre o auto-conceito real (aquilo que sou ou acho que sou) e o auto-conceito ideal (aquilo que eu gostaria de ser), a solução mais fácil para a criança resolver esta equação seria preservar o seu ideal e, refugiando-se num registo de fantasia, distorcer artificialmente aquilo que é, como que fazendo de conta que, de facto, é uma grande bailarina, que dá grandes saltos e piruetas como aquelas que vê no youtube quando escreve ballet com “t” (tantas vezes fui vendo este registo de “aquilo que me é vetado eu faço de conta”). Então, quando alguém ou alguma evidência lhe viesse mostrar o contrário, ficaria furiosa, eventualmente até agressiva e diria que a culpa é dos outros, que eles é que não entendem nada. Poderia muits vezes parecer uma “patetinha”, mas iria proteger a sua auto-estima. Quantas vezes os pais, para evitar que os filhos “sofram”, alimentam esta fuga à realidade! Mas também há o risco contrário, que tendo consciência das suas dificuldades, se aperceba que esse ideal (os saltos e as piruetas da bailarinas do youtube) lhe está vetado e que, por isso, “se vá abaixo das canetas”. Aquilo que é (ou pensa que é) passa a ser responsável pelo desmoronar do seu ideal e, por isso, deixa de ter valor, desanima e começa a acreditar que nada (ou pouco) vale a pena. Num caso destes, como em tantas situações da nossa vida, a solução passa por mexer em ambas as dimensões da equação: 1. encontrar ideais “realistas” (e.g. recorrendo a exemplos ou a modelos) - “claro que podes ser bailarina, mas já sabes que é dificil que possas dar esses saltos e fazer essas piruetas… mas há bailarinos que conseguem fazer outras coisas fantásticas que também podes fazer”; 2. incrementar o desempenho pessoal, com trabalho, esforço e dedicação, mas também permitindo que obtenha realizações que sejam valorizadas por si e pelos outros - dar-lhe aulas, ensaios, um palco, o vestido de ballet, uma coreografia adequada, em interação com colegas, e… aplausos.
- “Assim, sim, claro que podes e hás-de ser bailarina”.
A dança é uma magnífica forma de expressão e ”ser bailarina” pode mesmo ser o melhor da vida desta criança.
Lembrei-me então do projeto A-ju-dança  um projeto de dança inclusiva, agora um serviço da IN-Associação para a Inclusão ao Longo da Vida, a que tive a oportunidade de assistir de forma emocionada, há poucas semanas, no auditório de Serralves. Vão ao Facebook deles dar uma vista de olhos e vejam que grandes bailarinos eles são!



terça-feira, 2 de setembro de 2014

Motivação para aprender no ensino superior

Estou na trabalhar na comunicação que eu e a minha colega Benedita faremos na sexta-feira, dia 5, no Congresso Nacional de Práticas Pedagógicas no Ensino Superior.14 - "Criação e avaliação pelos pares de vídeos pedagógicos no ensino/aprendizagem da Microbiologia". Com ela partilho a vontade de procurar a melhor forma de promover uma aprendizagem auto-regulada nos nossos estudantes, num processo centrado não neles, estudantes, não é nós, docentes, mas na aprendizagem. Por isso, quando me pediu ajuda para colaborar neste processo, não hesitei. O que foi feito: 1. os estudantes elaboraram pequenos vídeos sobre os conteúdos da unidade curricular; 2. cada um deles avaliou os vídeos dos colegas; 3. fizeram uma avaliação da sua própria motivação enquanto realizavam o trabalho. Numa aula com direito a pipocas e tudo, foi possível perceber a criatividade, humor, e rigor cientifico patentes em cada um dos vídeos, indicadores de um processo de construção certamente bastante investido. Ao avaliar os vídeos, os alunos atribuíram classificações mais baixas que os próprios docentes (revelador da isenção e seriedade com que assumiram a responsabilidade de contribuírem para o processo de avaliação). Demonstraram ainda elevados níveis de motivação, destacando-se o desafio sentido na realização desta tarefa. Vale a pena pensar em estratégias ativas de aprendizagem, dar o material e a orientação para que os estudantes sejam os principais agentes no processo de atingirem os seus próprios objetivos - é o "scaffolding" de que fala Jerome Bruner, assumindo o docente o papel de "parceiro mais competente de interação", tal como defendia Vygotsky. Um dos exemplos que tenho vindo a ensaiar nas minhas aulas é a construção das máscaras, as "personas", a propósito do tema "personalidade". Com este exercício, a propósito da construção de uma máscara e da sua caracterização, os estudantes têm a oportunidade de aprender e utilizar os conceitos sobre este domínio através da construção de um produto, de um projeto coletivo. Os ganhos em termos de envolvimento e integração dos conceitos são evidentes. Naturalmente que tal não implica um alheamento do professor - o apoio na seleção de fontes e de materiais de pesquisa e a dispobilidade ativa para orientar a elaboração das tarefas é essencial. É desta forma que encaro o meu papel enquanto docente do ensino superior.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Começo/recomeço.

Manhã cedo, acabei de acordar. É o começo de um novo dia. Dia 1 de Setembro. Fim de férias. É o começo de um novo "ano laboral". Acho fantástica esta circularidade da vida. Sendo os mesmos, permite-nos sempre renovar. Tal como no momento de sair da cama tenho que lidar com o conflito entre o desejo de dormir mais um pouquito e /ou continuar agarrado à Maria e, por outro lado, a sensação de que, tendo o sol já nascido, está na hora de animar, de me fazer à vida, também hoje, dia 1 de Setembro, lido com sentimentos ambivalentes - habituava-me à "boa vida" do mês de Agosto Vs estava mesmo a precisar de ação, de voltar a sentir que faço acontecer. E decidi, finalmente, escrever no blogue (ao tempo que andava a congeminar esta ideia). E cá estou eu, num novo começo. Depois de um mês de tantas leituras, é um novo livro que se abre! Até breve.