segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Serão de domingo

O serão de domingo tem tudo para ser um excelente momento de encontro em família. Nesse dia dormiu tudo (ou quase tudo) até mais tarde e, por isso, o "João Pestana" tarda mais em chegar. Para além disso, dá mesmo vontade de prolongar mais o dia, como se esticássemos o fim-de-semana e fizéssemos adiar a segunda-feira o mais possível. A televisão até poderia dar uma ajuda nesse sentido, criando pretextos para que a família se reunísse em torno de um programa de entretenimento. Como me lembro da minha infância e juventude em que um programa de televisão e uma caixa de "sortido fino" eram o motivo para que nos encontrássemos. Mas, atualmente, três fatores fazem com que o risco seja o de que a televisão seja sim pretexto para que cada um esteja no seu canto: 1. a variedade da programação; 2. a multiplicidade de ecrãs; 3. a concorrência e os horários da programação. Há de facto muitos mais canais e as pessoas podem escolher programas que mais se adequem aos seus gostos e interesses. Esta diversidade e o poder de escolher "o quê" e "quando" ver é aliás, uma das grandes vantagens da televisão de hoje. Mas há os "diretos", e os "primeiros" e os "últimos" episódios, coisas que dá vontade de ver naquele momento para que, no dia seguinte, se possa comentar com o pessoal. Ontem, entre uma série de outras coisas, deu o jogo do Porto, o último episódio da telenovela da SIC, o direto e primeiro episódio da casa dos segredos 5. Não questiono sequer a qualidade de cada um destes conteúdos. O que se passa é que, com tantos ecrãs em casa, cada qual pode decidir ir para um ecrã, sozinho, ver o que lhe apetece: vou para o quarto ver um filme no AXN, vou ver a casa dos segredos no PC, fico na sala a ver o Fator X. Os muitos ecrãs fazem aumentar o individualismo e limitam as possibilidades de encontro entre pessoas. E depois há a concorrência e os horários tardios. Os miúdos têm que se levantar cedo na segunda de manhã (e já agora, os adultos também) e não devem ficar até às tantas para saber quem é expulso ou quem é escolhido pelo público ou como acaba um filme que começou à hora em que se devia estar a ir deitar. Com isto, o serão de domingo que poderia ser um privilegiado momento de encontro de família, pode-se tornar um pesadelo e motivo de verdadeiro conflito ou, pior, de resignação, com cada um para o seu lado. Devemos contrariar isto. São os adultos que devem gerir os recursos e as rotinas da família:
- "Só um ecrã vai estar ligado, vamos conversar e discutir qual o programa que vai ser visto, em família" (assim, até podemos decidir o que está vetado!);
- "Às tantas horas vamos para a cama, se o programa não chegar ao fim, vemos amanhã o resto" (afinal uma das vantagens da tecnologia).
Parece bem?

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